Conto Erótico Curto: Dez Minutos
Era a pausa do almoço. Lídia tinha uma hora livre entre duas reuniões e um nó no estômago que não era fome. Era a mensagem que recebera de manhã de Paulo — colega de um projecto que terminara há três meses — dizendo apenas: Estou no café da Rua do Ouro. Se puderes, passa.
Paulo e Lídia tinham um passado não resolvido: semanas de tensão num projecto intenso, um beijo numa noite de entrega que nenhum dos dois mencionara depois, e depois o projecto acabara e cada um voltara ao seu departamento como se aquilo não tivesse acontecido. Mas havia acontecido. E continuava a acontecer em recordação, com aquela persistência irritante das coisas que ficaram a meio.
O Café que Era Desculpa
Ele estava à mesa do fundo quando ela entrou. Levantou-se, ela sentou-se, o empregado apareceu e nenhum dos dois soube o que pedir. Pediram café por reflexo. E ficaram ali sentados com a cidade a passar na montra e dez anos de educação a impedir que dissessem o que tinham a dizer.
Foi ela que falou primeiro: — Não vim por causa do café.
— Eu sei — disse ele. — Eu também não mandei mensagem por causa do café.
E depois ficou ali aquele silêncio que nos filmes tem música de fundo mas na vida real tem apenas o barulho de xícaras e a respiração de dois adultos a decidirem se querem ser covardes ou não.
Não foram covardes.
Dez Minutos que Não Eram Suficientes e Eram Tudo
Havia uma sala de reuniões no segundo andar do edifício ao lado — Paulo tinha acesso, era cliente da empresa — e ficou vazia durante exactamente os dez minutos que precisavam. Dez minutos de urgência que não eram desespero mas clareza: o reconhecimento físico de duas pessoas que se queriam há demasiado tempo e que finalmente tinham decidido não desperdiçar mais tempo de lamento.
Não havia romantismo na economia do tempo — havia algo mais honesto: desejo sem ornamento, mãos que sabiam onde ir, a alegria breve mas completa de satisfazer uma vontade que andava à espera. Quando saíram de novo para a rua, com dois minutos de margem para Lídia chegar à reunião seguinte, havia neles uma leveza que vinha de resolver qualquer coisa que tinha estado a ocupar espaço mental durante meses.
— Agora sim — disse ela, no passeio. — Podemos ser amigos normais.
— Talvez — disse ele, com um sorriso que não prometia nada e prometia tudo.
Lídia chegou à reunião a tempo. Toda a gente perguntou porque estava com aquele ar bem-disposto. Disse que tinha almoçado bem.
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