Contos Eróticos

Conto Erótico: Exibicionismo no Hotel

P Paula Camargo
18 May 2026 4 min leitura 53 visualizacoes
Conto Erótico: Exibicionismo no Hotel

O hotel ficava no Chiado, num edifício pombalino recuperado com cuidado suficiente para manter a alma sem sacrificar o conforto. Vera tinha escolhido o quarto especificamente — quarto 14, segundo andar, com janelas grandes que davam para um pátio interior rodeado de outros quartos e de janelas de apartamentos vizinhos. Era um pormenor que o site não mencionava mas que ela tinha verificado com uma fotografia pedida ao concierge antes de reservar. O detalhe importava.

Luís chegou às oito, como combinado. Conheciam-se há poucos meses, mas havia entre eles uma cumplicidade que costuma demorar mais a construir-se. Tinham falado sobre isto — sobre o que ela queria, sobre o porquê, sobre o prazer específico de ser vista sem que ver seja uma certeza. Ele entendera. Mais do que isso: interessara-se genuinamente.

A Janela

Jantar tinha sido leve e rápido — uma refeição de quem tem outro propósito em mente. De volta ao quarto, Vera foi directamente às janelas e abriu-as de par em par. A noite do Chiado entrou com o seu ruído habitual — vozes, o eléctrico ao longe, música de algum restaurante da rua abaixo. O pátio estava iluminado apenas pela luz que saía das janelas de outros quartos e dos apartamentos em frente, e havia aqui e ali a silhueta de alguém que passava sem dar atenção.

Luís ficou atrás dela, de pé, e pousou as mãos nos seus ombros. Num sussurro que era apenas para ela:

— Tens a certeza?

Ela voltou-se ligeiramente, o suficiente para ele ver o sorriso. Tinha a certeza. Tinha tido a certeza desde que marcou o quarto.

O que se seguiu foi conduzido pelo contraste entre o interior do quarto — a intimidade, a pele, o sussurro — e a abertura para o mundo lá fora. Vera descobrira anos antes que o exibicionismo não era sobre atenção de estranhos — raramente havia atenção real, e quando havia era de relance. Era sobre a possibilidade. Era sobre a forma como o risco de ser vista tornava cada gesto mais consciente, mais vivido, como se a presença de um horizonte externo tornasse mais nítida a experiência interna.

A Presença da Cidade

Numa das janelas em frente havia luz mas nenhum movimento visível. Numa outra, uma sombra que passou devagar. Vera não sabia se alguém a via. Não precisava de saber. A incerteza era parte do prazer — a suspensão entre o privado e o público, entre o que se guarda e o que se oferece, mesmo que só ao espaço aberto e à noite.

Luís estava completamente presente — não como espectador mas como participante de algo que compreendia mesmo não partilhando exactamente da mesma forma. Havia generosidade nessa diferença, uma disposição para estar naquele espaço por ela sem precisar de o sentir da mesma maneira para o respeitar.

Quando fecharam as janelas muito mais tarde, o pátio estava completamente silencioso e a cidade tinha abrandado para o ritmo da madrugada. Vera deitou-se com uma leveza que não era indiferença — era satisfação de um tipo particular, o tipo que vem de ter feito algo que se queria há muito tempo e de o ter feito bem.

O Silêncio a Seguir

Luís adormeceu primeiro. Vera ficou acordada mais um pouco com os olhos no tecto, ouvindo a cidade lá fora como se a ouvisse pela primeira vez. Há prazeres que são óbvios e imediatos, e depois há outros que só se revelam completamente na quietude que se lhes segue. Este era do segundo tipo.

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