Conto Erótico Maduro: O Encontro no Porto
Manuel tinha cinquenta e três anos, uma empresa de engenharia com doze funcionários, e uma vida que funcionava com a eficiência de um mecanismo bem calibrado. O divórcio ficara para trás há quatro anos, os filhos já estavam na universidade, e havia uma ordenação no seu quotidiano que era tanto conforto como entorpecimento. Não estava infeliz — estava, de certa forma, suspenso. Como um livro marcado numa página a meio que ninguém voltava a abrir.
Helena tinha quarenta e oito, era professora de história de arte na Faculdade do Porto, e tinha nela a qualidade rara de quem chegou à meia-idade sem perder curiosidade pelo mundo. Conheceram-se numa conferência sobre reabilitação urbana — ela como ouvinte, ele como orador — e a conversa que se seguiu ao coffee break tinha durado muito mais do que qualquer um esperava.
A Livraria
Encontraram-se três vezes antes de este encontro: duas vezes para café e uma para um jantar longo na Ribeira que terminou quase à meia-noite. Havia entre eles uma atracção que nenhum dos dois tinha fingido não existir, mas que tinham deixado construir-se ao ritmo que lhe é próprio, sem forçar nem recuar. Era, Manuel percebera, a forma de estar de alguém que já viveu suficiente para saber que a pressa raramente melhora as coisas.
Neste sábado de março, tinham combinado começar na Livraria Lello. Helena queria mostrar-lhe uma edição antiga que encontrara semanas antes, e Manuel, que raramente entrava em livrarias por prazer, descobriu que o prazer estava menos na edição do que na forma como ela falava sobre ela — com a mesma atenção que dava a tudo, como se cada coisa tivesse peso suficiente para merecer presença completa.
O Quarto
O hotel era pequeno e ficava na Baixa, com os quartos a cheirar a madeira velha e cedro. Helena reservara-o sem alarido — como quem trata de logística necessária sem transformar o acto em declaração. Quando chegaram, o Porto já estava a escurecer lá fora e a chuva miudinha batia na janela com um ritmo irregular que era, em si mesmo, uma forma de música.
O que Manuel descobriu naquela noite foi que a intimidade com alguém de experiência e presença tem uma qualidade completamente diferente da urgência dos vinte anos. Não havia pressa, não havia necessidade de provar nada, não havia o peso de expectativas não articuladas. Havia dois adultos com história suficiente para saberem o que querem e confiança suficiente para o pedir. Helena movia-se pelo espaço com a facilidade de quem habita o seu próprio corpo sem conflito, e havia nisso uma liberdade que ele reconheceu como algo que tinha passado décadas a tentar encontrar sem saber que era isso que procurava.
A chuva intensificou-se durante uma hora e depois abrandou. Eles ficaram acordados muito depois de ela parar, a falar com aquela intimidade particular que nasce depois da intimidade física — quando as defesas estão baixas e as palavras chegam de algum sítio mais profundo do que o habitual.
A Manhã no Porto
Tomaram pequeno-almoço num café da Baixa com tremoços e café duplo, com o Porto a ganhar forma à sua volta com a lentidão dos domingos. Manuel olhou para Helena a ler o jornal com os óculos na ponta do nariz e pensou que havia formas de acordar que eram melhores do que outras. Esta era claramente uma delas.
Voltaram a Lisboa em carros separados, como vieram. Mas havia qualquer coisa diferente no caminho de volta — uma leveza, como quando se resolve algo que estava há muito por resolver.
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