Conto Erótico: O Adeus Memorável
A transferência de trabalho de Joana para Berlim tinha data marcada há três meses, e durante esses três meses ela e Gabriel tinham continuado como se a data não existisse — encontros às quartas-feiras, fins de semana ocasionais, a cumplicidade construída ao longo de um ano que nenhum dos dois quisera nomear demasiado cedo e que agora ficaria, por necessidade geográfica, sem nome para sempre.
Não tinham sido namorados. Não tinham sido apenas amantes. Eram qualquer coisa no meio — pessoas que se escolhiam regularmente, que se conheciam bem o suficiente para não precisarem de fingir, que tinham construído entre si um território que pertencia só a eles. E aquela quinta-feira era a última noite nesse território antes de ele ficar vazio.
A Última Noite que Sabe a Tudo
Gabriel reservou o restaurante onde tinham jantado na primeira vez — uma decisão que Joana reconheceu quando leu a morada na mensagem e que a fez fechar os olhos por um momento. Havia naquilo uma delicadeza que era típica dele: não dramática, não sentimental de forma óbvia, mas atenta ao que as coisas significavam.
O jantar foi longo. Beberam mais do que o habitual, não para anestesiar mas para dar ao tempo uma qualidade de expansão — como se o vinho alargasse as horas disponíveis. Falaram de tudo o que tinham feito juntos e de algumas coisas que nunca tinham dito em voz alta porque havia sempre a semana seguinte para dizê-las. Aquela noite era a semana seguinte de tudo.
— Vais ser feliz em Berlim — disse ele, a determinada altura. Não era pergunta.
— Vou ter saudades aqui — disse ela. — Não de Lisboa. De ti.
— Berlim tem aeroporto — disse ele, com aquele humor seco que ela sempre achara irresistível. — E eu tenho passaporte.
O Adeus que Fica
No apartamento dele — que em poucos dias ela deixaria de conhecer o código da porta — a noite teve uma qualidade de memória antecipada: faziam qualquer coisa e ao mesmo tempo já a estavam a recordar. Havia atenção no modo como ele a olhava, como se quisesse gravar detalhe. Havia da parte dela uma presença total que normalmente reservava para momentos únicos.
Quando Joana saiu de manhã com a mala pequena que sempre deixava ali, virou-se no patamar — como ela dizia que nunca se devia fazer em despedidas — e viu Gabriel na porta com aquela expressão que ela levaria para Berlim.
— Até quando? — disse ela.
— Até quando — repetiu ele. Não era pergunta. Era promessa.
O táxi para o aeroporto atravessou Lisboa ainda com o azul da manhã, e Joana não chorou. Ficou com o que tinha — que era mais do que a maioria das pessoas encontra numa vida inteira.
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