Contos Eróticos

Noite de Fado em Alfama: Conto de Saudade e Desejo

P Paula Camargo
08 Jan 2026 4 min leitura 47 visualizacoes
Noite de Fado em Alfama: Conto de Saudade e Desejo

A casa de fados em Alfama estava cheia. Mesas apertadas, velas a derreter sobre toalhas de linho, e o silêncio reverente que precede a primeira nota. Érica sentou-se na única cadeira livre — ao lado de um homem que segurava um copo de ginjinha com a concentração de quem tenta não derramar uma emoção.

A fadista começou a cantar. A voz era antiga e nova ao mesmo tempo, carregada de saudade e de uma dor bonita que apertava o peito. Érica sentiu as lágrimas subirem — não sabia porquê, talvez pela solidão que lhe pesava ultimamente, talvez pela beleza pura daquele momento.

Quando uma lágrima lhe escorreu pela face, sentiu um toque suave no braço. O homem ao lado estendia-lhe um lenço de pano — branco, bordado, antiquado. Um gesto de outra era que a comoveu mais do que a música.

— O fado faz-nos isso — sussurrou ele, e a voz dele era tão grave e aveludada como a guitarra portuguesa que acompanhava a fadista. Chamava-se Álvaro, era músico — tocava contrabaixo numa orquestra — e tinha os olhos mais tristes e mais bonitos que Érica alguma vez vira.

Ficaram calados durante o resto do espectáculo, mas as mãos encontraram-se debaixo da mesa durante uma canção sobre amor impossível. Os dedos dele — longos, de músico — entrelaçaram-se nos dela com a mesma naturalidade com que tocavam cordas. Érica sentiu cada nota da guitarra reverberar através daquele toque, como se a música passasse do instrumento para a pele.

Depois do fado, saíram para as ruas estreitas de Alfama. A noite era fresca e cheirava a rio e a grelhados. Caminharam sem destino, subindo e descendo escadinhas, perdendo-se propositadamente no labirinto de vielas que só Alfama sabe tecer.

— Há uma coisa no fado — disse Álvaro — que é exactamente como o desejo. Aquela tensão entre o que temos e o que queremos. A saudade do que ainda não vivemos.

— Saudade do futuro — disse Érica. — Isso é bonito.

— É o que estou a sentir agora. Saudade de te conhecer melhor, mesmo antes de acontecer.

Pararam numa escadaria que dava para um miradouro minúsculo, escondido, que poucos turistas conheciam. Lisboa brilhava lá em baixo como um tapete de luzes, e o Tejo era uma fita negra bordada de reflexos. Álvaro sentou-se num degrau e puxou-a para junto de si.

O beijo foi como o fado — começou com saudade e terminou com paixão. A boca dele tinha o sabor da ginjinha, doce e amarga ao mesmo tempo, e a língua movia-se com o mesmo ritmo que os dedos usavam no contrabaixo: lento, profundo, fazendo vibrar cordas que Érica não sabia ter.

— Vivo ali — disse ela, apontando para um prédio a vinte metros. — No terceiro andar.

O apartamento era pequeno como todos em Alfama, mas tinha uma varanda com vista para o rio. Não acenderam a luz. A lua e as luzes da cidade bastavam para se verem, e as sombras tornavam tudo mais íntimo, mais secreto.

Álvaro tocou-a como tocava o contrabaixo — com uma mão que sustentava e outra que explorava, encontrando harmonias no corpo dela que produziam sons involuntários. Érica gemeu quando os dedos de músico encontraram os pontos exactos, e ele ajustava a pressão e o ritmo como quem afina um instrumento até encontrar a nota perfeita.

Amaram-se com a janela aberta, e os sons de Alfama — um fado distante, um gato no beco, o sino de um eléctrico tardio — misturaram-se com os sons deles, criando uma composição que nenhuma partitura poderia conter. Érica sentiu o prazer crescer como um crescendo musical, camada sobre camada, até ao fortissimo que a deixou trémula e sem ar.

Depois, na varanda, partilharam um cigarro e olharam para o rio em silêncio. Álvaro abraçou-a por trás e apoiou o queixo no ombro dela.

— Escrevo-te uma canção — disse ele.

— Escreve-me um fado — pediu ela. — Com saudade do futuro.

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