O Desconhecido do Bar: Uma Fantasia Real
Carolina tinha uma fantasia que nunca confessara a ninguém. Imaginava-se num bar, sozinha, a ser abordada por um desconhecido que diria exactamente as palavras certas. Na sua cabeça, o cenário mudava — às vezes era um bar de hotel elegante, outras vezes uma tasca escondida — mas a essência era sempre a mesma: a vertigem do desconhecido.
Naquela sexta-feira, depois de uma semana particularmente exaustiva no hospital onde trabalhava como cirurgiã, decidiu que a fantasia merecia uma oportunidade. Vestiu um vestido preto justo, calçou sapatos altos que raramente usava, pintou os lábios de vermelho escuro e saiu de casa com o coração a bater mais depressa do que o normal.
O bar ficava no Príncipe Real, discreto, com uma porta sem letreiro. Lá dentro, a luz era baixa, o jazz era suave, e o bartender servia cocktails com a solenidade de um alquimista. Carolina sentou-se ao balcão e pediu um Negroni.
Ele sentou-se dois bancos à direita. Não olhou para ela imediatamente — estava concentrado no whisky, aparentemente absorto nos próprios pensamentos. Era o tipo de homem que ela notaria em qualquer sala: maxilar definido, sobrancelhas escuras sobre olhos que pareciam mudar de cor com a luz, mãos grandes e cuidadas que seguravam o copo com uma firmeza tranquila.
Carolina bebeu metade do Negroni antes de ele finalmente se virar. Quando os olhos se encontraram, ela sentiu como se o chão tivesse oscilado ligeiramente — não de forma dramática, mas o suficiente para alterar o equilíbrio.
— Esse vestido — disse ele, com uma voz baixa que parecia feita para segredos — é o tipo de vestido que uma mulher usa quando quer ser vista.
Não era piropo. Era observação. Carolina sentiu um calor subir-lhe pelo pescoço.
— Talvez eu queira ser vista — respondeu, surpreendendo-se com a própria audácia.
Ele levantou-se, pegou no copo e sentou-se no banco ao lado. De perto, cheirava a madeira e a especiarias, algo quente e masculino que a fez querer inclinar-se e respirar mais fundo.
— Tiago — disse ele.
— Carolina.
A conversa que se seguiu foi como um jogo de xadrez. Cada frase calculada, cada pausa intencional, cada sorriso uma peça movida no tabuleiro. Falaram de viagens, de livros, de medos secretos, e a cada revelação a intimidade crescia como a temperatura numa sala fechada.
A mão dele pousou no joelho dela algures durante o segundo cocktail. Não subiu, não avançou — ficou simplesmente ali, quente e pesada, uma promessa silenciosa. Carolina pôs a sua mão sobre a dele e entrelaçou os dedos.
— Tenho um quarto reservado no hotel aqui ao lado — disse ele, e antes que ela pudesse reagir, acrescentou: — Tinha uma reunião de manhã cedo e achei mais prático ficar no centro. Mas se quiseres, a reunião pode tornar-se... secundária.
Ela deveria ter pensado. Deveria ter hesitado. Mas a cirurgiã que tomava decisões de vida ou morte em segundos sabia reconhecer o momento exacto em que a hesitação se torna um obstáculo. Acabou o cocktail, pegou na mala e disse simplesmente:
— Mostra-me o caminho.
O quarto do hotel tinha uma banheira junto à janela com vista para a cidade. Tiago encheu-a sem perguntar, despejou os sais que encontrou no balcão do banho e voltou-se para ela. Despiu-a devagar, com uma concentração que a fez sentir-se simultaneamente vulnerável e poderosa.
Entraram juntos na banheira, a água quente a envolvê-los como um segundo abraço. As pernas entrelaçadas debaixo de água, as mãos a explorarem-se com a curiosidade paciente de quem tem toda a noite. Ele lavou-lhe o cabelo, massajou-lhe os ombros tensos, e quando os dedos dele desceram pela coluna, Carolina arqueou-se como um arco prestes a disparar a flecha.
Da banheira passaram para a cama sem se secarem completamente, deixando um rasto de água no chão de mármore. Os corpos húmidos deslizavam um sobre o outro com uma facilidade que parecia ensaiada. Tiago tinha uma forma de a tocar que era simultaneamente firme e delicada — as mãos de um homem que sabia exactamente o que queria mas que tinha paciência para chegar lá devagar.
Quando se uniram, Carolina sentiu que a fantasia que alimentara durante anos empalidecia face à realidade. O prazer não foi apenas físico — foi a libertação de uma mulher que passava os dias a controlar tudo e que finalmente se permitia perder o controlo.
Adormeceu nos braços de um desconhecido e acordou com o cheiro de café fresco. Tiago tinha encomendado o pequeno-almoço ao quarto e estava sentado na cama, a olhar para ela com um sorriso que ela já reconhecia.
— A reunião? — perguntou ela.
— Cancelada — respondeu ele. — Surgiu algo mais importante.
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