Contos Eróticos

O Encontro com a Acompanhante: Conto de Luxo

P Paula Camargo
03 Apr 2026 8 min leitura 29 visualizacoes
O Encontro com a Acompanhante: Conto de Luxo

Aviso: este conto contém conteúdo adulto explícito. Destinado a leitores com 18 anos ou mais. Todos os personagens são adultos fictícios que agem com pleno consentimento. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.

I. A Reserva

Miguel Ferreira tinha quarenta e sete anos, dois divórcios nas costas, e uma empresa de logística que empregava duzentas e oitenta pessoas. Sabia exactamente como funcionava o mundo: com contratos, com confiança, e com a capacidade de reconhecer quando havia chegado a hora de pedir o que se queria sem rodeios.

A decisão não fora impulsiva. Durante meses lera sobre o assunto, reflectira, considerara e depois descartara a ideia — repetindo o ciclo com a mesma disciplina que aplicava às suas análises de mercado. O que o detinha não era a moral, há muito ultrapassada pela solidão que se instalara depois do segundo divórcio. Era o ego: a ideia de que podia precisar de pagar pela companhia de uma mulher.

Mas uma noite, depois de um jantar de negócios que acabara às onze com um aperto de mão e uma pasta de documentos, voltara para o apartamento do Chiado a pé, pelo Largo do Carmo, com a cidade a brilhar abaixo dele e a sensação nítida de que havia uma diferença insuperável entre ter tudo e partilhar algo. Abrira o portátil, navegara pelos perfis de acompanhantes em Lisboa durante mais tempo do que esperava, e fizera a reserva antes de poder mudar de ideias.

A suite do Ritz custava mil e duzentos euros por noite. A acompanhante — chamava-se Leonor, segundo o perfil, com uma fotografia que revelava mais elegância do que exposição — cobrava o seu próprio preço, que Miguel pagara sem negociar, como um profissional. A negociação seria, ela explicara numa troca de mensagens curtas e educadas, para os detalhes da noite. Não para o que custava.

Registou-se no hotel às sete da tarde. O porteiro tratou-o pelo nome, como é costume no Ritz, e aquele simples gesto — Boa noite, Dr. Ferreira — restabeleceu a segurança que a antecipação lhe roubara ao longo do dia.

A suite era imponente sem ser excessiva. Vista para o Parque Eduardo VII a iluminar-se no crepúsculo, um sofá de veludo cinzento, uma cama que parecia ter sido feita para durar mais do que uma vida. Miguel pediu uma garrafa de Barca Velha ao serviço de quarto e sentou-se junto à janela a ver Lisboa transformar-se em constelação enquanto o dia morria.

II. A Chegada

Leonor chegou às nove em ponto.

Bateu à porta três vezes, devagar, e quando Miguel abriu ficou um instante sem palavras. Não era que ela fosse diferente das fotografias — era que as fotografias não transmitiam a forma como ela ocupava o espaço. Alta, com um vestido preto de corte simples que descía até ao joelho, cabelo castanho escuro apanhado num coque levemente imperfeito, como se tivesse desfeito e refeito até conseguir aquele equilíbrio entre formal e íntimo. Os olhos eram verdes com pontos dourados, e olhavam-no com uma atenção desconfortavelmente directa.

— Dr. Ferreira — disse ela, não como uma pergunta.

— Miguel — respondeu ele, recuando para a deixar entrar.

Ela entrou, avaliou a suite com um olhar breve e experiente, e foi directo ao vinho. Virou-se para ele com os dois copos já na mão. — Barca Velha. Boa escolha para uma noite assim.

Sentaram-se no sofá com a cidade como pano de fundo. Miguel esperara que ela fosse directa ao assunto, ou que ele tivesse de o ser, mas Leonor começou a falar sobre o vinho — o carácter da Quinta do Vale Meão, a diferença entre as colheitas da década de oitenta e as mais recentes — com uma fluência que o desarmou completamente. Ela sabia de vinhos como ele sabia de rotas de transporte: com o prazer discreto de quem domina um assunto sem precisar de o exibir.

— Sabia que ia ser diferente — disse ele, surpreendendo-se com a própria franqueza.

— Como assim?

— Imaginei que isto seria mais... transaccional.

Ela inclinou a cabeça ligeiramente. Não havia ofensa no gesto, apenas consideração. — É uma transacção, não me interpretes mal. Mas as melhores transacções são aquelas em que ambas as partes saem a ganhar. O que é que queres desta noite, Miguel? E não fales de serviços. Fala de ti.

A pergunta ficou no ar durante o tempo que levou a terminar o primeiro copo de vinho. Miguel olhou para Lisboa lá fora — os pontos de luz que eram janelas, a vida que acontecia em paralelo e sem o conhecer — e disse uma coisa que não dissera a ninguém em anos: — Quero sentir que importo. Não como empresário. Como pessoa.

III. A Suite

Leonor pousou o copo e aproximou-se dele com uma deliberação que não tinha nada de mecânico. Colocou uma mão no lado do seu rosto com uma suavidade que o fez fechar os olhos involuntariamente, como se o toque fosse demasiado nítido para ser observado ao mesmo tempo que sentido.

— Então é isso que vamos fazer — disse ela, em voz baixa. — Por essa ordem.

O que se seguiu contrariou tudo o que Miguel esperara. Não houve urgência, não houve performance. Leonor tirou-lhe o casaco, desapertou a gravata, desabotoou a camisa com uma concentração que fazia cada botão parecer importante — e a cada peça que caía, dava-lhe um beijo num sítio diferente. No pescoço, na clavícula, na linha do ombro, no centro do peito. Beijos pequenos, precisos, como pontuação numa frase que ela estava a escrever no seu corpo.

Quando o empurrou suavemente para a cama e ficou de pé diante dele, o olhar dela era sério. Tirou os brincos, depois o gancho do cabelo, e o coque desfez-se numa onda castanha que lhe caiu sobre os ombros. Depois, devagar, desceu o fecho do vestido.

Miguel ficou imóvel, incapaz de perceber se o que sentia era desejo ou algo mais complicado — a vulnerabilidade de quem se permite receber atenção depois de demasiado tempo a distribuí-la. Leonor deitou-se ao seu lado e percorreu-lhe o rosto com as pontas dos dedos, como uma cega a aprender uma fisionomia.

— Olha para mim — disse ela, quando os olhos dele procuraram escapar-se para o tecto.

Ele olhou. Ela sorriu, e foi esse sorriso — genuíno, sem cálculo — que o desfez.

Amaram-se durante horas, com interrupções para beber vinho, para ela o fazer rir com uma história de um cliente anterior que confundira o minibar com o cofre, para conversas que derivavam sem propósito mas com prazer. Leonor era experiente mas não distante — havia momentos em que fechava os olhos e suspirava com uma autenticidade que Miguel não tentou decifrar, optando por a aceitar como o presente que era.

Por volta da meia-noite, deitados no escuro com a cidade a pulsar lá fora, ela disse: — Fazes bem em não te punires por isto, sabes.

— Nunca disse que me punisse.

— Não precisaste. — Ela voltou-se de lado para ele. — Os homens que se punem chegam aqui e tentam convencer-se de que não está a acontecer. Tu estás presente. É diferente.

Miguel ficou a pensar nisso durante muito tempo depois de ela adormecer ao seu lado, o cabelo espalhado na almofada, a respiração regularizada. Fora a presença que comprara — e encontrara, inesperadamente, também a sua própria.

IV. A Manhã

Ao acordar, a suite estava inundada de luz do Parque Eduardo VII. Leonor estava sentada no sofá com o roupão do hotel, a beber o café que o serviço de quarto deixara na porta. Tinha um livro aberto no colo — um romance que ele não reconheceu — e os óculos que ela não usara na noite anterior pousados no nariz.

Não falaram muito durante o pequeno-almoço. Era um silêncio que não precisava de ser preenchido. Quando ela se levantou para ir buscar a mala, Miguel quis dizer algo importante mas não encontrou as palavras adequadas. Disse apenas: — Foi uma noite inesquecível.

Ela virou-se na porta com o casaco já vestido. — Para mim também. — Não havia obrigação na frase. Era apenas a verdade, e ambos sabiam reconhecê-la quando a ouviam.

Depois de ela sair, Miguel ficou à janela durante muito tempo, com o café a esfriar na mão, a olhar para a cidade que acordava e a sentir, pela primeira vez em anos, que havia uma diferença entre estar sozinho e escolher a solidão.

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