Presos no Elevador: Um Conto de Tensão
O elevador do prédio na Avenida da Liberdade era antigo, daqueles com porta de grade de ferro e cabine de madeira polida. Tinha charme, mas também tinha a irritante tendência de avariar nos momentos mais inconvenientes. Como numa noite de sexta-feira, às onze da noite, com Filipa e Henrique lá dentro.
Filipa vivia no sexto andar e Henrique no quarto. Conheciam-se de vista — cumprimentos educados nas escadas, conversas sobre o tempo no hall de entrada — mas nunca tinham passado mais de dois minutos juntos. Até o elevador decidir que aquela noite seria diferente.
O solavanco aconteceu entre o terceiro e o quarto andar. As luzes piscaram, houve um ruído metálico, e a cabine parou. Filipa, que regressava de um jantar com amigas, estava ligeiramente embriagada. Henrique, que voltava do ginásio, estava em calções e t-shirt, com uma toalha ao ombro.
— Isto agora vai ser divertido — disse ela, carregando no botão de emergência sem resultado.
— O técnico demora sempre pelo menos uma hora — informou Henrique, sentando-se no chão da cabine. — Já me aconteceu duas vezes.
Filipa olhou à volta. A cabine tinha talvez metro e meio por metro e meio. Com dois adultos lá dentro, o espaço pessoal era um conceito puramente teórico. Sentou-se no chão em frente a ele, os joelhos quase a tocar.
— Bom, temos uma hora. O que fazemos?
— Podemos conversar — sugeriu ele. — Vivemos no mesmo prédio há dois anos e não sei nada sobre ti.
Conversaram. E à medida que os minutos passavam, o espaço apertado criava uma intimidade acelerada. Filipa descobriu que Henrique era veterinário, que tinha um gato chamado Saramago (em homenagem ao escritor, não ao outro), e que os ombros largos debaixo da t-shirt molhada de suor eram tão impressionantes de perto como pareciam à distância.
Henrique descobriu que Filipa era ilustradora, que trabalhava em casa em pijama, e que quando ria — o que fazia com frequência — tinha uma covinha na bochecha esquerda que o fazia querer pôr o dedo lá.
— Está calor aqui dentro — disse Filipa, abanando-se com a mão. A ventilação do elevador também tinha parado, e o ar estava pesado.
— Posso emprestar-te a toalha para te refrescares — ofereceu ele.
Ela aceitou, e quando pôs a toalha no pescoço, sentiu o cheiro dele — suor limpo, desodorizante fresco, qualquer coisa almiscarada. Deveria ser desagradável. Não era.
— Cheiras bem — disse ela, e o vinho tinha-lhe retirado o filtro. — Quer dizer... desculpa, isso foi estranho.
— Não foi estranho — respondeu ele, e os olhos dele tinham escurecido. — Tu também cheiras bem. A vinho e a perfume de flores.
O ar entre eles mudou. A temperatura subiu outro grau — não por causa da ventilação, mas por causa da forma como se olhavam num espaço onde era impossível olhar para outro lado.
Filipa nunca soube quem se moveu primeiro. Talvez tenham sido os dois ao mesmo tempo, como dois ímanes que finalmente se aproximam o suficiente. O beijo no espaço apertado do elevador foi intenso por necessidade — os corpos já estavam perto, e quando os lábios se encontraram, tudo o resto encaixou.
As mãos dele envolveram-lhe a cintura e puxaram-na para o colo. Naquela posição, sentada sobre ele com as pernas de cada lado, Filipa sentia tudo — o peito dele contra o seu, o calor que irradiava da pele, o desejo que crescia entre eles com uma urgência que o espaço confinado amplificava.
— Se o técnico chegar agora... — murmurou ela entre beijos.
— Ele demora sempre mais do que diz — respondeu Henrique, puxando-lhe o vestido pelos ombros.
No espaço minúsculo do elevador, cada toque era amplificado, cada gemido reverberava nas paredes de madeira. Não havia espaço para se afastarem, para respirarem, para pensarem — havia apenas pele contra pele, boca contra boca, e um desejo que encontrava formas criativas de se expressar num metro e meio quadrado.
Henrique virou-a de costas para ele, sentada entre as pernas dele, e as mãos percorreram-lhe o corpo por trás enquanto a boca lhe beijava o pescoço. Filipa inclinou a cabeça para trás contra o ombro dele e deixou os gemidos ecoarem nas paredes da cabine.
Quando o elevador finalmente arrancou — quarenta e cinco minutos depois — estavam sentados lado a lado, vestidos, corados, com sorrisos que não conseguiam conter. O técnico esperava no quarto andar com uma expressão aborrecida.
— Está tudo bem? — perguntou.
— Tudo óptimo — respondeu Henrique.
— Nunca melhor — acrescentou Filipa.
Nessa noite, Filipa não subiu ao sexto andar. Parou no quarto. E conheceu o Saramago — o gato, não o escritor.
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